8.9.09

Macho Ibérico ou Ubersexual?

O mundo muda. O homem também. O novo homem, mais sensível e com um toque feminino, pretende enterrar de vez o machismo.
O homem a (espécie masculina) talvez não corra perigo, mas o modelo mais recalcitrante (o do macho latino) tem, seguramente, os dias contados. Com efeito a perda de poder permitiu a muitos homens heterossexuais (os homossexuais travam outras guerras), libertar-se da pesada carga machista que os obrigava, há séculos, a assumir as máscaras supostamente características da identidade masculina, como aparentar segurança, ocultar os sentimentos ou fingir desinteresse por coisas "femininas" como a moda.
A verdade é que hoje a virilidade está em plena mutação. Já não existe uma masculinidade hegemónica ou homogénea, mas muitas versões. Esses novos seres, que, embora sexualmente atraídos pelas mulheres e adeptos de futebol, querem usufruir da paternidade, partilhar as tarefas domésticas, tratar da pele ou mesmo ir voluntáriamente às compras, sem serem apelidados de "maricas". Assim, do universo metrossexual passámos para a era dos ubersexuais: um novo tipo de homem, simultâneamente sensível e viril.
Claro que nem tudo é côr-de-rosa. O machismo é ainda ostensivo e prevalece em muitos aspectos da sociedade, mas a verdade é que os homens estão a mudar, não tanto como as mulheres desejariam mas, sem dúvida, muito se os compararmos com os de há duas gerações.

Dez características da nova virilidade:

1 - 90% dos homens acompanham de perto a gravidez das mulheres e assistem às ecografias e ao parto. Além disso, 57% tratam dos filhos. Já não há forma única de ser pai, pois existe uma diversidades criadas (famílias com filhos de anteriores relações, a figura do padrasto, a paternidade dos homossexuais...). Ser pai representa, actualmente, uma escolha, um compromisso.
2 - Muitos já conseguem falar de si próprios, tal como as mulheres sempre fizeram. Há muitas masculinidades distintas; o modelo mediterrânico vive numa sociedade, em que o suporte económico é o homem. Muitos ainda pretendem manter a ilusão de que a "arena pública" lhes pertence. Em muitos homens, verifica-se um desfasamento entre a forma como aprendem a pensar em si mesmos e a mostrar-se aos outros e o modo como, realmente, se sentem por dentro.
3 - O mercado da cosmética masculina e da cirurgia estética duplicou nos últimos cinco anos, já representam um quarto do mercado.
Estamos como já referi, na era dos ubersexuais, termo que deriva do alemão uber, que sgnifica "sobre" ou "por cima". Não se aplica a um indivíduo com muita prática sexual. Dito de outra forma, um ubersexual seria um metrossexual, que embora se preocupe com o aspecto físico, não teme mostrar características "viris", como confiança, força e elegância.
4 - Quanto mais jovens forem os homens, mais pretendem dispôr de tempo livre para se dedicarem a si próprios. Alguns chegam mesmo a subalternizar a carreira profissinal em função desse critério.
5 - Cinco em cada dez mulheres que trabalham fora de casa e vivem com um parceiro continuam a fazer tudo sozinhas. Apenas um em cada dez homens cuida sozinho da casa, e três em cada dez partilham o trabalho com a mulher.
6 - A maior parte dos homens adora as compras "extravagantes" e deixa-se seduzir pelas prateleiras dos vinhos, conservas e delicatessen com maior facilidade do que as mulheres. obrigadas a ser mais práticas, pois continuam maioritáriamente responsáveis pelo governo da casa e pela economia familiar.
7 - São cada vez mais os que sabem cozinhar: um quinto fá-lo, a maioria proveniente da classe média-alta e dos meios urbanos. Além disso o interesse masculino pela culinária é fundamentalmente de carácter festivo e reduz-se aos fins-de-semana.
8 - Embora, por um lado, o consumo de pornografia e cibersexo, entre os homens tenha crescido, também aumentou o respeito que muitos sentem pelas companheiras, sobretudo por parte dos mais jovens, educados num ambiente de maior liberdade. O velho esquema hipócrita de uma vida "dupla", com a mulher e mãe dos filhos de um lado e as amantes do outro, não condiz com os ubersexuais.
9 - Dois terços dos homens e quatro em cada cinco mulheres acham que os homossexuais têm o direito de casar. Porém, a cultura gay libertou emocionalmente muitos heterossexuais e ajudou-os a entender-se a si próprios e a exprimir-se.
10 - O ubersexual interessa-se pela poesia, jazz, viagens, yoga e espiritualidade, entre outras manifestações culturais.
Lumenamena

3 comentários:

Adh2bs disse...

Interessante observar as mudanças, nós (no caso eu) que somos netos de uma geração que ainda valorizava os papéis definidos de antanho: mulheres a cuidar da casa e os homens como provedores do lar. Mais interessante ainda é observar a necessidade de rótulos que a sociedade tem para distinguir os tipos... Talvez uma necessidade oriunda da essência do capitalismo: identificar diferentes grupos de consumidores...
Ótima semana pra ti.
Adh2bs

Lumenamena disse...

Ash2bs,

As mudanças já se observam, e a realidade é que a discriminação pode parecer a mais drástica e assustadora face da desigualdade. Ela se apresenta de forma flagrante a partir das normas de conduta, desde as jurídicas até as da ética e da moral.
Embora a época e a sociedade em que se vive sejam, em certa medida, factores determinantes e condicionantes, cabe ao indivíduo fazer escolhas e optar por um procedimento consoante a sua personalidade e formação. Se na década de sessenta havia aqueles que fugiam à norma, não se encaixavam em estereótipos e eram diferentes da maioria, também nesta década isso continua a dar-se porque, qualquer que seja o tempo em que vivamos, haverá sempre os que se incluem num padrão de comportamento considerado mais aceitável e outros que contrapõem esse estado de coisas.
É muito mais fácil fazermos parte de um grupo maioritário do que nos marginalizarmos e termos de defender a posição que escolhemos e na qual acreditamos. No entanto, só assim é que uma sociedade evolui e se conquistam estatutos que vão definir inovadoras maneiras de estar e de ser. As minorias de hoje serão as maiorias de amanhã.

Obrigada e boa semana para ti.
Lumenamena

Edson Carmo disse...

Todo sistema tem um tempo de vida: um começo, um meio e um fim. As coisas começam, e no seu início não se pode ver seus defeitos, seus prejuízos, seus efeitos e o que causam. Mas com um certo tempo tudo se torna claro e saturado, então chega o tempo de mudar. Paradigmas, movimentos, ideologias, impérios nascem, fortalecem-se, enfraquecem e caem. Qual o sistema primitivo que ainda permanece? E quais os atuais que permaneceram para sempre? Isso que está acontecendo também é passageiro.

Edson Carmo